Como isto é para depois de minha morte posso deixar de ser modesto
O abecedário de Gilles Deleuze
É preciso muita leitura para entender, mas sabedoria para experimentar. Ora, já disse um mundo, e poderia me contentar pelo silêncio que muito diz, deixar o leitor sentir o dessabor de suas inquietudes, mas nem tudo pensa, e o que não pensa é mais agradável (ou seria o que não é pensado?). Desculpem-me (ou seria desculpem-nos?) pela série de pleonasmos, prolifera-me (-nos?) essa mania incontida de dizer o que não se vê.
Os motivos provocam simpatia, dançam em simpatia, um movimento que nos atravessa e nos faz escorregar. Há formas que motivam um tornar-se, e é permanecendo dentro que se foge. Postulo um texto-idioleto, para transcrever percepções cotidianas onde: "o bom senso é a afirmação de que, em todas as coisas, há um sentido determinável; mas o paradoxo é a afirmação dos dois sentidos ao mesmo tempo" (DELEUZE, Lógica do Sentido). Claro, há um esforço imenso em transformar os conceitos no que de fato são, não algo meramente cognitivo, mas pragmático. Tenho inúmeras deficiências, e às vezes empobreço as reflexões, dando vazão às minhas a-significâncias.
Não sei como fiz essa nexo de casualidade (caso lhe constranja, comparação), às vezes admiro minha idiotia, mas compararei o puro devir ao mundo das mediocridades que separam-hierarquizam-classificam-categorizam-bestializam o mundo quantitativo e qualitativo. É um infanticídio (em prol da ironia cai na esparrela da dicotomia infantil/adulto) de nosso próprio pensamento priorizar uma das vertentes, no sentido de dogmatizar um polo e desqualificar o outro. Cada um com suas especificidades, com seus recortes do caos, seus meios instrumentais, adequações. A quem queira que o louco seja visto sob a tutela de uma formulação matemática, será? Não, creio que há quem queira que não se pesquise o louco, em prol do desenvolvimento da pesquisa "das coisas limitadas e medidas, das qualidades fixas, quer sejam permanentes ou temporárias, mas supondo sempre freadas assim como repousos, estabelecimentos de presentes, designações de sujeitos: tal sujeito em tal grandeza, tal pequenez em tal momento" (idem). E o louco é o "puro devir sem medida, verdadeiro devir-louco que não se detém nunca, nos dois sentidos ao mesmo tempo, sempre furtando-se ao presente, fazendo coincidir o futuro e o passado, o mais e o menos, o demasiado e o insuficiente na simultaneidade de uma matéria indócil" (idem).
Desculpem pela provocação, disse formulação matemática, mas quantitativo e qualitativo estão no mesmo barco, mais próximos das qualidades fixas que das movediças, o primeiro mais que o segundo, mas ambos limítrofes de uma mesma limitação, como recortar o caos? Sob meu mundo possível, minhas relações, encontros admiro os que qualitativamente procuram se aproximar do louco, esse é um impulso admirável nos que fazem qualitativamente seus recortes. Nesses há aqueles que refutam o mundo quantitativo, uns pela inadequação de seus recortes a esse instrumental outros por pura rivalidade (entenda infanticídio). Há aqueles que unem ambas as ferramentas, com impulso (digo, leitura) ao mundo qualitativo, sabem que precisam do quantitativo, e quando necessário recorrem a ambos, ou a um ou a outro, porque o dogma é que faz priorizar um método que não serve a si mesmo, sim à pesquisa. Por outro lado, há aqueles que fazem do quantitativo seu mundo, uns dogmatizam o método, e tendem a desqualificar o mundo que sequer conhecem. Aliás, estive vislumbrado uma época sobre os pressupostos de Kant, e descobria a filosofia por detrás das formulações matemáticas, foi estonteante observar o mundo que as inventam, tive que abandonar o barco com muita lamúria (mentira), mudei de recorte. Ironia, há quem sequer conheça o que lhe inventa e quer desqualificar o que nada sabe. Há outros que com impulso ao mundo quantitativo, devido seus recortes, possuem simpatia com o mundo qualitativo e tentam uma proximidade. Há um sortido de tantos outros ao mundo de cada um.
Vejo que o mundo quantitativo e qualitativo se embebedam em copos por vezes divergentes, sobretudo diante da ignorância de quem os utilizam, mas é preciso saber que o louco é um recorte rizomático, onde a multiplicidade de métodos nos aproximam melhor dele, cada qual diante suas adequações. Serei medíocre e óbvio, mas em pleno século XXI tornar métodos qualitativos e quantitativos uma escolha binária é arcaico e vergonhoso. Binário é formado por polos, polos que formam uma mesma coisa, é um duplo, um duplo de existência.
"As coisas medidas acham-se sob as ideias; mas debaixo das próprias coisas não haveria ainda este elemento louco que subsiste, que 'sub-vem', aquém da ordem imposta pelas ideias e recebida pelas coisas?" (idem).
Por: Yure Araujo
